quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Azul e verde.


Lou havia acabado de enxugar uma lágrima quando uma mulher aparentando seus 35 anos, acompanhada de duas meninas lindas, se aproximou da beira do lago, onde estava sentada. Era um agradável fim de tarde pra sentar na grama e dar comida aos patos enquanto as crianças corriam de um lado pro outro. As duas meninas, muito sapecas, rolavam na grama. A moça tirou um livro da bolsa e começou a ler, e de vez em quando olhava as duas meninas para conferir se estava tudo bem.
Lou chorava baixinho à exatas 12 horas, e a cabeça ia explodir.
Até que, como um feixe de luz que invade uma caverna inexplorada, uma das meninas, de cabelos cacheados e rebeldes, aponta pro lago e explode num grito:
-Olha lá, o mar!
A outra menina, de vestido roxo, instantânea e revoltadamente, responde:
-O mar é azul! Aquilo é um lago! Não tá vendo que é verde?
Lou mais uma vez derramou uma lágrima, mas pelo menos escorreu no meio de um sorriso.
Por mais tímido que fosse, era um sorriso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Férias

As aspirinas já vão grátis logo após o último ponto.

Escrevi algo indigno de minha pessoa
Tão indigno que se o leitor me encontrasse na rua, me esbofetearia a cara e me julgaria insana
Não sei como Sir Ivaldo Jr não o fez, ele foi o único infeliz que leu tal porcaria
Por fim, me arrependi e apaguei
Não perca tempo, vá direto pro texto a baixo.

Ascos de M.H.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Antes de mim, ela.


-Me expõe, me expõe!

Era basicamente isso que ela queria quando me criou. A pequena era tão incompetente que nem chegou a 1,60m de altura, e tudo que ela queria era um lugar ao sol (ou à penumbra, não sei). Ela escrevia, tinha o hábito desde que ainda corria com o lápis a cartilha do jardim de infância; queria mostrar pra alguém o que podia escrever, queria mostrar pro mundo o que podia escrever. E tinha vergonha do que escrevia. Tinha vergonha de falar em sexo, em cigarros, em drogas e outros componentes de um sub mundo injustiçado por uma índole conservadora. Queria saber, fazer parte e interagir com esse mundo, queria que seu contato com ele fosse acima da mera teoria, queria ser e não ser, estar além do corpo.
Queria materializar seus sonhos e suas piores frustrações.
Queria pôr um toque singelo de amargo e sádico na sua vidinha feliz e colorida com gosto de chocolate.
Queria transcender as barreiras da tão mitológica felicidade e descobrir o que pode vir antes e depois dela.
O mal, o perverso, o inverso, o cru e o azedo.
Assim nasceu Maria Helena.

Para P.L, que me odeia.

domingo, 19 de outubro de 2008

Sobre café, aspirinas e pessoas doces.


À Lella, minha Estella.

16:00. Precisava estudar e tava dando sono. Fiz uma quantidade absurda de café e me sentei à escrivaninha. Depois na mesinha do quintal, observando, de relance, Coelho brincar com as formigas.
"Gilgamesh, rei de Uruk...". Um gole.
"Enkiduh...". Outro gole.

20:00. As duas igrejas perto da minha casa iniciaram seus respectivos cultos dominicais. E eu, louca de cafeína, sob efeito de uma aspirina (minha cabeça começou a latejar não sei por que, e tomei uma) e muito elétrica, liguei o som e fui pro MSN.
Encontro Lella.
Lella me fala de doçura e de paixão, me mostra seu blog, me emociona. Me fala de filhos, de amores não vividos, de voz rouca, de falta de gestos e expressão. Me fala de pais cruéis, de tatuagens, de piercing, de cooper, do meu namorado, de blusas, vestidos e all stars.
Descubro que ela gosta das pernas. Eu também gosto muito das minhas. E das minhas costas, dos rins pra cima. Dos rins pra baixo não, tou muito gordinha dos rins pra baixo.
O conjunto olhos/nariz/boca dela é harmonioso, coisa que o meu não é. Pensando bem, eu só gosto da minha boca.
Lella acha que é a cara dela que afasta as pessoas. Ela também acha que é feia, gorda, cheia de bunda.
Eu vou emprestar um vestido meu pra ela, só pra mostrar que nada disso é verdade.
E eu procurando motivo pra voltar a estudar. Pra quê? Se Lella conversa comigo sobre coisas mais interessantes.

Aliás, eu fui mais ela do que eu. A culpa é do café, que mescla nossas personalidades.
(Peritos em M.H entenderão.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As coisas em baixo da cama.

Ela devia ter seus 18 ou 19 anos. Não cabe aqui lembrar. De fato, ela ia explodir e precisava fazer alguma coisa antes que isso acontecesse.
Acerca de paredes devia ser o sub título desse post, porque é justamente delas que eu vim falar; paredes frias, nuas, que comprimem o ser e dilaceram a alma, pelo menos no sentido menos dramático da expressão (se é que ele existe!).
Diva era saudável, tinha um futuro brilhante perante a inteligência e, como toda boa menina mal compreendida, tinha uma rixa inexplicável com a figura do pai.
Não era antiga, de fato. Na infância, Diva tinha o pai como referencial de moral, bons princípios e uma direção que apontava sempre pro certo e pro melhor. Eram grandes companheiros, e talvez por causa disso ela houvesse crescido com uma certa masculinidade no jeito de falar e andar.
Tudo isso veio por baixo naquele dia, quando ela tinha 16, na casa de praia. Ela só pegou o celular do pai pra dar um telefonema inocente, ela não queria se deparar com aquilo. Tudo para que Deus (ela acreditava nele) lhe privasse de testemunhar tal desventura.

Estou com saudade.
Me ligue assim que voltar da praia. Beijos pra você, semana passada foi maravilhoso.

Como assim?? O que havia de tão maravilhoso assim? E com quem?
Um turbilhão de pensamentos surgiram na pobre cabeça feliz e brilhante de Diva. Contar pra mãe, jogar o celular na cara do pai, gritar pros quatro ventos que o pai tinha uma amante ou...
Se calar. E deixar o tempo curar tais feridas.
Diva começou a fumar, e mais que nunca decidiu arranjar um vício. Ao contrário do que acontece todo dia com as melhores famílias, Diva não se tornou uma rebelde sem causa. Mergulhou de cabeça nos seus estudos, nos seus livros, no seu violão e até nos esportes; começou a nadar pra esfriar a cabeça (literalmente).
Tudo era válido, desde que só precisasse chegar em casa para encontrar o pai dormindo, exausto depois de um dia de trabalho.
Eles pararam de se falar gradualmente. Primeiro conversavam pouco, no máximo um comentário besta sobre o clima ou o transito na carona pra escola. Depois algumas perguntas bobas que podiam ser respondidas com monossílabos. E, por fim, um "bom dia" respondido com um rápido "bom", claro, totalmente desprovido de emoção ou troca de olhares. O misto de nojo, repúdio, decepção, ódio, percorreu o estômago de Diva durante dias. Depois meses. Depois anos. Até o dia que Diva resolveu cursar uma faculdade totalmente oposta aos planos do pai, o que virou do avesso certas feridas que tinham um com o outro.
Parecia que os anos de silêncio acumulados iam ser revirados agora. Mas, para o azar de Diva e a boa impressão da família, o pai dela resolveu cobrir tudo em panos quentes e não bater muito de frente com a decisão dela, já que não era tão necessário assim. Era o futuro dela, o que tem demais?
E a situação voltou a se repetir. O primeiro congresso universitário, a balada de 18 anos, o namorado novo, as paredes pretas do quarto, os vestidos mais curtos, o cabelo quase raspado, o piercing, a tatuagem; tudo coberto com nossos
velhos amigos panos quentes, empurrados pra debaixo da cama com uma vassoura de pelos, já que não era tão necessário assim dar atenção pra essas coisas bobas.
E assim,empurrando a vida com a barriga, o problema, obviamente, se tornou uma bola de neve. Não se sabe exatamente quando ou como isso vai acabar; se Diva será feliz ou não, se dará tudo certo ou, basicamente, Diva vai chegar à idade de sair de casa fugindo, mais uma vez,do probleminha aqui apresentado.
Quando essa história acabar, eu aviso, só pra tranquilidade dos meus queridos leitores.
Afinal, estamos todos torcendo por um final feliz, não é?
Eu, sinceramente, não estou. Mas não deixe meu excesso de pessimismo influenciar suas expectativas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Retrato em P&B


Um encontro de Maria Helena Sobral e Sophia Fidélis.

Um domingo que vale à pena registrar. Um encontro quase histórico se não envolvesse duas anônimas soltas pelo centro de uma cidade distante. Não era nada confortável estar percorrendo os becos e avenidas de Caruaru com um celular, uma câmera digital, cinco reais e um prendedor de cabelo distribuídos nos meus dois bolsos. Ela, alegre, menina brincalhona que sempre foi, com uma bolsa à tiracolo cheia de cigarros, uma saia indiana esvoaçante, blusa marron despreocupada, os curtos cabelos ao vento e uma vontade louca de me fazer relaxar. Relaxar como?! Eu estava sem documentos! Correndo o risco de ser assaltada! Bobalheiras e paranóias de cidade grande; eu não estava livre de nenhuma delas. As conversas, ah, as conversas! Todas produtivas, lógico.
-O meu * faz muito bem...
-O meu * faz ainda melhor...
Não tínhamos muito o que falar. Queríamos ser meninas de novo, livres como nos tempos de infância, no sítio dos nossos bisas no meio da caatinga. Tirar fotos em monumentos, soltar fumaça de cigarros no vento frio, falar palavrões e cantar cantigas pornofônicas. Éramos nós, apesar de toda a minha tensão.
-Eu estou sem minha bolsa! Sem documentos!
-Eu juro que te arranco um braço fora da próxima vez que você falar a palavra ''documentos''.
O intuito inicial era comprar pilhas pra minha câmera, mas terminamos revivendo nossa infância por alguns minutos. Eu, no auge da minha paranóia urbana, tratei de terminar nosso momento insistindo pra pegar o ônibus de volta à casa de nossa tia, onde eu estava hospedada. Não tinha a menor intenção de ficar ali no meio de onde eu nem sei com aquela louca de cabelos descoloridos, cheia de disposição pra não fazer algo que prestasse.
O que eu não percebi nos nossos poucos minutos de aventura foi que eles eram únicos; e que eu não estava contribuindo em nada para que se tornassem especiais.
Ainda assim, o foram.

[Te amo! o/]

Meu beijo sincero à nossa aprendiz na arte da loucura.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Morfeu.

-Não agora, nem aqui! Céus, tá tudo tão bem na minha vida! Por que eu ainda tenho essa idéia absurda? Não há humano que não sofra, não existe esse negócio de plenitude! Eu não sou pleno!

Ele ia de um canto a outro da casa, procurando...ele sabia o que. Não respirava; ofegava, gritava cada palavra. Janis berrava “Cry Baby” no som da sala, repeat automático on, ele estava no repeat. Complexos pensamentos e problemas que pareciam não ter solução lhe comprimiam contra a janela do seu quarto no quinto andar. Morreria na queda, ou atropelado quando caísse na via perpendicular à BR. Talvez seu corpo fosse arrastado até lá por um caminhão de carga saindo da fábrica dos arredores.Não sabia, as possibilidades eram tantas!

Foi escrever.

Três da manhã no meu apartamento claustrofóbico. Encontro-me isolado; minhas únicas compainhas são Janis, meu copo cheio com o White Horse que ganhei no Natal de Adriana, a chuva...

Adriana, meu estereótipo de mulher perfeita.

Eu, um vagabundo sentimental obcecado e maníaco depressivo.

Eu falando do que entendo melhor: eu mesmo.

Eu ainda procuro um suspiro que dê um murro nos meus pulmões e os estimule a continuar mandando oxigênio pro meu cérebro.

Preciso de sexo e de um cigarro. Faz tempo que meu pau não fica duro e fumo desde que me entendo por gente; mas a necessidade desse último não é de nicotina.

Tomara que Deus não leia isso. Mas ele já tá lendo meus pensamentos enquanto escrevo.

Fudeu!”

Ele parou apavorado, esquadrinhou a casa toda a procura de um lugar onde pudesse escrever sem pensar e se esconder de Deus. Não havia a possibilidade. Deus, se existisse, saberia o que se passava em sua mente perturbada. “Não, eu não vou deixar”, escreveu.

Sentou-se na sala, onde Janis berrava mais alto. Escreveria narrando e Janis abafaria seus pensamentos. Deus não o ouviria em meio ao “Cry, cry, cry...” que ela insistia em gritar.

“Meu peito tá doendo. Eu preciso pôr pra fora uma dor que desconheço!

É desgosto!

Só pode ser efeito da minha vida mal vivida, dos meus dias isolados e das poucas vezes que respirei consciente que vivia.

Viver...tá aí uma coisa que à muito não sei o que significa.

As aranhas que tecem teias ao redor de um coração quase parado começam a reproduzir-se. Parece que meu peito é um ótimo canto úmido e cheio de moscas para alimentá-las; quem sou eu para tirar todas com uma vassoura?

Moscas e aranhas conseguem viver em simbiose em mim, porque eu não alcanço tal simbiose comigo mesmo?

Não enxergo luz no meu apartamento iluminado pela reforma que Adriana fez aqui. As cortinas brancas e os sofás creme denunciam a presença dela aqui, me sufocam, agridem meus olhos.

Ceguem, infelizes! Ceguem meus olhos para que a luz dela não me incomode mais!

Não, não sou nem fui corno!

Tampouco ela me deixou!

Eu que sou um desprovido de qualquer tipo de consideração por mim mesmo e não me permito qualquer tipo de fraqueza!

Eu, totalmente entregue aos meus obscuros pensamentos, contagio e espanto qualquer tipo de alma que se aproxime daquilo que um dia foi a minha!

Definitivamente não estou pronto para tentar me entender. E sei que, se eu sair daqui, vou me matar...”

Ele escreveu até as oito da manhã, quando, não aguentando mais o cansaço e aproveitando as últimas forças que sua mão direita ainda possuia, enfiou o cano da calibre 38 na boca e puxou o gatilho.

Logo agora que minha imaginação começou a despertar!