terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Antes de mim, ela.


-Me expõe, me expõe!

Era basicamente isso que ela queria quando me criou. A pequena era tão incompetente que nem chegou a 1,60m de altura, e tudo que ela queria era um lugar ao sol (ou à penumbra, não sei). Ela escrevia, tinha o hábito desde que ainda corria com o lápis a cartilha do jardim de infância; queria mostrar pra alguém o que podia escrever, queria mostrar pro mundo o que podia escrever. E tinha vergonha do que escrevia. Tinha vergonha de falar em sexo, em cigarros, em drogas e outros componentes de um sub mundo injustiçado por uma índole conservadora. Queria saber, fazer parte e interagir com esse mundo, queria que seu contato com ele fosse acima da mera teoria, queria ser e não ser, estar além do corpo.
Queria materializar seus sonhos e suas piores frustrações.
Queria pôr um toque singelo de amargo e sádico na sua vidinha feliz e colorida com gosto de chocolate.
Queria transcender as barreiras da tão mitológica felicidade e descobrir o que pode vir antes e depois dela.
O mal, o perverso, o inverso, o cru e o azedo.
Assim nasceu Maria Helena.

Para P.L, que me odeia.

domingo, 19 de outubro de 2008

Sobre café, aspirinas e pessoas doces.


À Lella, minha Estella.

16:00. Precisava estudar e tava dando sono. Fiz uma quantidade absurda de café e me sentei à escrivaninha. Depois na mesinha do quintal, observando, de relance, Coelho brincar com as formigas.
"Gilgamesh, rei de Uruk...". Um gole.
"Enkiduh...". Outro gole.

20:00. As duas igrejas perto da minha casa iniciaram seus respectivos cultos dominicais. E eu, louca de cafeína, sob efeito de uma aspirina (minha cabeça começou a latejar não sei por que, e tomei uma) e muito elétrica, liguei o som e fui pro MSN.
Encontro Lella.
Lella me fala de doçura e de paixão, me mostra seu blog, me emociona. Me fala de filhos, de amores não vividos, de voz rouca, de falta de gestos e expressão. Me fala de pais cruéis, de tatuagens, de piercing, de cooper, do meu namorado, de blusas, vestidos e all stars.
Descubro que ela gosta das pernas. Eu também gosto muito das minhas. E das minhas costas, dos rins pra cima. Dos rins pra baixo não, tou muito gordinha dos rins pra baixo.
O conjunto olhos/nariz/boca dela é harmonioso, coisa que o meu não é. Pensando bem, eu só gosto da minha boca.
Lella acha que é a cara dela que afasta as pessoas. Ela também acha que é feia, gorda, cheia de bunda.
Eu vou emprestar um vestido meu pra ela, só pra mostrar que nada disso é verdade.
E eu procurando motivo pra voltar a estudar. Pra quê? Se Lella conversa comigo sobre coisas mais interessantes.

Aliás, eu fui mais ela do que eu. A culpa é do café, que mescla nossas personalidades.
(Peritos em M.H entenderão.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As coisas em baixo da cama.

Ela devia ter seus 18 ou 19 anos. Não cabe aqui lembrar. De fato, ela ia explodir e precisava fazer alguma coisa antes que isso acontecesse.
Acerca de paredes devia ser o sub título desse post, porque é justamente delas que eu vim falar; paredes frias, nuas, que comprimem o ser e dilaceram a alma, pelo menos no sentido menos dramático da expressão (se é que ele existe!).
Diva era saudável, tinha um futuro brilhante perante a inteligência e, como toda boa menina mal compreendida, tinha uma rixa inexplicável com a figura do pai.
Não era antiga, de fato. Na infância, Diva tinha o pai como referencial de moral, bons princípios e uma direção que apontava sempre pro certo e pro melhor. Eram grandes companheiros, e talvez por causa disso ela houvesse crescido com uma certa masculinidade no jeito de falar e andar.
Tudo isso veio por baixo naquele dia, quando ela tinha 16, na casa de praia. Ela só pegou o celular do pai pra dar um telefonema inocente, ela não queria se deparar com aquilo. Tudo para que Deus (ela acreditava nele) lhe privasse de testemunhar tal desventura.

Estou com saudade.
Me ligue assim que voltar da praia. Beijos pra você, semana passada foi maravilhoso.

Como assim?? O que havia de tão maravilhoso assim? E com quem?
Um turbilhão de pensamentos surgiram na pobre cabeça feliz e brilhante de Diva. Contar pra mãe, jogar o celular na cara do pai, gritar pros quatro ventos que o pai tinha uma amante ou...
Se calar. E deixar o tempo curar tais feridas.
Diva começou a fumar, e mais que nunca decidiu arranjar um vício. Ao contrário do que acontece todo dia com as melhores famílias, Diva não se tornou uma rebelde sem causa. Mergulhou de cabeça nos seus estudos, nos seus livros, no seu violão e até nos esportes; começou a nadar pra esfriar a cabeça (literalmente).
Tudo era válido, desde que só precisasse chegar em casa para encontrar o pai dormindo, exausto depois de um dia de trabalho.
Eles pararam de se falar gradualmente. Primeiro conversavam pouco, no máximo um comentário besta sobre o clima ou o transito na carona pra escola. Depois algumas perguntas bobas que podiam ser respondidas com monossílabos. E, por fim, um "bom dia" respondido com um rápido "bom", claro, totalmente desprovido de emoção ou troca de olhares. O misto de nojo, repúdio, decepção, ódio, percorreu o estômago de Diva durante dias. Depois meses. Depois anos. Até o dia que Diva resolveu cursar uma faculdade totalmente oposta aos planos do pai, o que virou do avesso certas feridas que tinham um com o outro.
Parecia que os anos de silêncio acumulados iam ser revirados agora. Mas, para o azar de Diva e a boa impressão da família, o pai dela resolveu cobrir tudo em panos quentes e não bater muito de frente com a decisão dela, já que não era tão necessário assim. Era o futuro dela, o que tem demais?
E a situação voltou a se repetir. O primeiro congresso universitário, a balada de 18 anos, o namorado novo, as paredes pretas do quarto, os vestidos mais curtos, o cabelo quase raspado, o piercing, a tatuagem; tudo coberto com nossos
velhos amigos panos quentes, empurrados pra debaixo da cama com uma vassoura de pelos, já que não era tão necessário assim dar atenção pra essas coisas bobas.
E assim,empurrando a vida com a barriga, o problema, obviamente, se tornou uma bola de neve. Não se sabe exatamente quando ou como isso vai acabar; se Diva será feliz ou não, se dará tudo certo ou, basicamente, Diva vai chegar à idade de sair de casa fugindo, mais uma vez,do probleminha aqui apresentado.
Quando essa história acabar, eu aviso, só pra tranquilidade dos meus queridos leitores.
Afinal, estamos todos torcendo por um final feliz, não é?
Eu, sinceramente, não estou. Mas não deixe meu excesso de pessimismo influenciar suas expectativas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Retrato em P&B


Um encontro de Maria Helena Sobral e Sophia Fidélis.

Um domingo que vale à pena registrar. Um encontro quase histórico se não envolvesse duas anônimas soltas pelo centro de uma cidade distante. Não era nada confortável estar percorrendo os becos e avenidas de Caruaru com um celular, uma câmera digital, cinco reais e um prendedor de cabelo distribuídos nos meus dois bolsos. Ela, alegre, menina brincalhona que sempre foi, com uma bolsa à tiracolo cheia de cigarros, uma saia indiana esvoaçante, blusa marron despreocupada, os curtos cabelos ao vento e uma vontade louca de me fazer relaxar. Relaxar como?! Eu estava sem documentos! Correndo o risco de ser assaltada! Bobalheiras e paranóias de cidade grande; eu não estava livre de nenhuma delas. As conversas, ah, as conversas! Todas produtivas, lógico.
-O meu * faz muito bem...
-O meu * faz ainda melhor...
Não tínhamos muito o que falar. Queríamos ser meninas de novo, livres como nos tempos de infância, no sítio dos nossos bisas no meio da caatinga. Tirar fotos em monumentos, soltar fumaça de cigarros no vento frio, falar palavrões e cantar cantigas pornofônicas. Éramos nós, apesar de toda a minha tensão.
-Eu estou sem minha bolsa! Sem documentos!
-Eu juro que te arranco um braço fora da próxima vez que você falar a palavra ''documentos''.
O intuito inicial era comprar pilhas pra minha câmera, mas terminamos revivendo nossa infância por alguns minutos. Eu, no auge da minha paranóia urbana, tratei de terminar nosso momento insistindo pra pegar o ônibus de volta à casa de nossa tia, onde eu estava hospedada. Não tinha a menor intenção de ficar ali no meio de onde eu nem sei com aquela louca de cabelos descoloridos, cheia de disposição pra não fazer algo que prestasse.
O que eu não percebi nos nossos poucos minutos de aventura foi que eles eram únicos; e que eu não estava contribuindo em nada para que se tornassem especiais.
Ainda assim, o foram.

[Te amo! o/]

Meu beijo sincero à nossa aprendiz na arte da loucura.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Morfeu.

-Não agora, nem aqui! Céus, tá tudo tão bem na minha vida! Por que eu ainda tenho essa idéia absurda? Não há humano que não sofra, não existe esse negócio de plenitude! Eu não sou pleno!

Ele ia de um canto a outro da casa, procurando...ele sabia o que. Não respirava; ofegava, gritava cada palavra. Janis berrava “Cry Baby” no som da sala, repeat automático on, ele estava no repeat. Complexos pensamentos e problemas que pareciam não ter solução lhe comprimiam contra a janela do seu quarto no quinto andar. Morreria na queda, ou atropelado quando caísse na via perpendicular à BR. Talvez seu corpo fosse arrastado até lá por um caminhão de carga saindo da fábrica dos arredores.Não sabia, as possibilidades eram tantas!

Foi escrever.

Três da manhã no meu apartamento claustrofóbico. Encontro-me isolado; minhas únicas compainhas são Janis, meu copo cheio com o White Horse que ganhei no Natal de Adriana, a chuva...

Adriana, meu estereótipo de mulher perfeita.

Eu, um vagabundo sentimental obcecado e maníaco depressivo.

Eu falando do que entendo melhor: eu mesmo.

Eu ainda procuro um suspiro que dê um murro nos meus pulmões e os estimule a continuar mandando oxigênio pro meu cérebro.

Preciso de sexo e de um cigarro. Faz tempo que meu pau não fica duro e fumo desde que me entendo por gente; mas a necessidade desse último não é de nicotina.

Tomara que Deus não leia isso. Mas ele já tá lendo meus pensamentos enquanto escrevo.

Fudeu!”

Ele parou apavorado, esquadrinhou a casa toda a procura de um lugar onde pudesse escrever sem pensar e se esconder de Deus. Não havia a possibilidade. Deus, se existisse, saberia o que se passava em sua mente perturbada. “Não, eu não vou deixar”, escreveu.

Sentou-se na sala, onde Janis berrava mais alto. Escreveria narrando e Janis abafaria seus pensamentos. Deus não o ouviria em meio ao “Cry, cry, cry...” que ela insistia em gritar.

“Meu peito tá doendo. Eu preciso pôr pra fora uma dor que desconheço!

É desgosto!

Só pode ser efeito da minha vida mal vivida, dos meus dias isolados e das poucas vezes que respirei consciente que vivia.

Viver...tá aí uma coisa que à muito não sei o que significa.

As aranhas que tecem teias ao redor de um coração quase parado começam a reproduzir-se. Parece que meu peito é um ótimo canto úmido e cheio de moscas para alimentá-las; quem sou eu para tirar todas com uma vassoura?

Moscas e aranhas conseguem viver em simbiose em mim, porque eu não alcanço tal simbiose comigo mesmo?

Não enxergo luz no meu apartamento iluminado pela reforma que Adriana fez aqui. As cortinas brancas e os sofás creme denunciam a presença dela aqui, me sufocam, agridem meus olhos.

Ceguem, infelizes! Ceguem meus olhos para que a luz dela não me incomode mais!

Não, não sou nem fui corno!

Tampouco ela me deixou!

Eu que sou um desprovido de qualquer tipo de consideração por mim mesmo e não me permito qualquer tipo de fraqueza!

Eu, totalmente entregue aos meus obscuros pensamentos, contagio e espanto qualquer tipo de alma que se aproxime daquilo que um dia foi a minha!

Definitivamente não estou pronto para tentar me entender. E sei que, se eu sair daqui, vou me matar...”

Ele escreveu até as oito da manhã, quando, não aguentando mais o cansaço e aproveitando as últimas forças que sua mão direita ainda possuia, enfiou o cano da calibre 38 na boca e puxou o gatilho.

Logo agora que minha imaginação começou a despertar!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Na sala de estar.

Sento

E percebo que começo a olhar para um nada aparentemente inexistente

É quando olho pra dentro de mim

E percebo a quantidade de faces que costumo usar

E essa é a pior

Largada numa calçada, olhando carros passarem

Pessoas desinteressantes

Vivendo suas vidas desinteressantes

Eu

Munida de um inferno astral e quatro cigarros

E algumas cédulas na carteira, pra qualquer emergência

Os cabelos desgrenhados, o delineador

Borrado

A minha paradoxal falta de consciência

Num momento de introspecção

Me examino de novo

E encontro uma garotinha encolhida num quarto escuro

Os olhos feridos pela luz do meu cigarro

Que não é muita, mas um verdadeiro farol pra quem à muito não sabe o que é

O iluminar da luz do dia

Ela não chora, não se mexe, não reage

Só me pragueja, me amaldiçoa

Grita, escreve onomatopéias agressivas

E eu, ser passivo e indignado

Recolho-me à minha insignificância

E vou fumar meu Holliwood sentada na calçada



Em casa

Despida em frente ao espelho

Esquadrinho cada centímetro de um corpo que julgo meu

Não reconheço mais as curvas do meu rosto

Não encontro mais meus tão sedosos e compridos cabelos

Não sinto mais o aroma de sabonete que insistia em encarnar em mim

Mesmo horas depois do banho

Perco meus sentidos

Não vejo minha boca mover-se quando canto uma canção que não ouço

Não sinto o cheiro que procuro em mim

Assim como não me sensibilizo ao tocar minha própria pele

E mesmo quando meus sentidos voltam, faço questão

De continuar meu momento nostálgico

Saudade de mim

De quando eu era menina e não tinha questões

De quando meu maior problema era chegar ao galho mais alto da mangueira

De, ao invés de despir minha roupa, despir minhas máscaras

Que até nas horas de extrema sinceridade

Me tornam falsa, inerte, superficial

Absurda


Não é de dormir que eu tenho medo

É de como vou acordar.


domingo, 27 de abril de 2008

Para sempre.

Sábado iluminado, pássaros cantando (não dava pra vê-los no meio do mar de cimento ao longo da janela), nuvens fofas; com certeza, era dia de casamento. Do casamento de Teresa.
Ana Teresa, namorando à seis anos, noiva à dois. Acordou animada, cheia de expectativas. Ia passar o dia sendo paparicada, bem cuidada, sob mãos e olhos profissionais que lhe deixariam deslumbrante pra noite que ia mudar o resto de sua vida. Ou melhor, de suas vidas. Sérgio também acordou com os humores alterados.
Manhã: salão de beleza, fazer escova, unha, limpeza de pele, celular tocando o tempo todo, amigo que não pode vir, presente que fulano mandou, casa cheia de mulheres, umas com inveja, outras tentando ajudar, palpites intermináveis no vestido, no arranjo de cabelo, água nas flores do buquê; terno pra passar, cabelos pra aparar, aquele uísque com um amigo de infância, esperar chegar a hora.
Tarde: maquiagem, vestir o vestido, arrumar as daminhas, os noivinhos, a florista, arranjos no cabelo, escolher as flores pro buquê, estressar com o motorista atrasado; ainda tomando uísque enquanto vestia o terno, esperar a hora chegar.
Noite: a hora chegou.
Sérgio ainda tinha dúvidas se devia ter escolhido outro terno. Não era um dia qualquer, logo Teresa entraria na igreja, de branco, do jeito que toda mulher sonha aparecer um dia. A igreja, cheia, enfeitada com lindos arranjos de tulipas naturais (suas flores favoritas); quando ela chegasse, estaria perfeita.
Teresa entrou no carro com o coração aos saltos, quase enlouquecida com o excesso de caprichos da mãe, que nunca estava satisfeita com a maquiagem e refazendo-a umas três vezes. O nervosismo tomava conta dos seus dedos por dentro das luvas sete oitavos. O casal de noivinhos refletiam o resto de sua vida ali mesmo, dentro do carro, e cada rua que o motorista virava em direção à igreja, pra ela, era uma nova virada que seus dias de casada possivelmente sofreriam; e quando o carro estacionou na porta da igreja, já não havia mais o que pensar. Era entrar na igreja e aproveitar o momento em que todos os olhares estariam virados pra ela. Sérgio com certeza estaria num lugar visível, encontraria forças em seu olhar.
"Bandolins" começou a tocar no altar, prova maior de que sua hora, de fato, havia chegado. Ia entrar sorrindo, acenando pra quantos fosse possível, "como se já fosse impróprio se dançar assim". Não restava nada a fazer além de dar o braço ao pai e encarar o tapete vermelho. Ah! Havia sim! O olhar de Sérgio!
E o encontrou por trás do segundo arranjo de tulipas, no lado esquerdo.
Agora tinha forças pra chegar ao fim do tapete vermelho, dar o braço ao noivo e dizer "sim" ao resto de sua vida.
Sérgio lhe passou todo o resto de forças que ainda tinha com o olhar. Esqueceu de guardar um pouco pra continuar vivendo e puxou o gatilho de uma 38 com o cano encostado na têmpora duas horas depois.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Recado aos estimados leitores

Devido um problema com meu computador, causado por um desocupado provindo do mesmo útero que eu, tive que formatá-lo.
Consequentemente, perdi todo o meu arquivo pro blog; todos os textos que eu pretendia postar.
Precisarei de um tempo para repor o que perdi, para organizar minha vida antes de postar normalmente; logo, se eu sumir por uns tempos, não se aflija: farei o possível para voltar logo.
Talvez sob outra face, com certeza com um sorriso explêndido. E talvez até curada de boa parte dos meus vícios, inclusive os de linguagem.
Até lá, deleitem-se com meus companheiros de palavras, os links estão disponíveis na culuna "Café com:"
Estimo-os, aguardo-os, esperem-me.
Atenciosamente,
Maria Helena Sobral.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Café com hortelã.

Nostalgia.

Era uma tarde de sábado cheia de nada pra fazer. Eu tomava café na minha varanda quando me deparei com Coelho completamente inquieto. Tudo bem, quieto ele nunca foi, mas naquela tarde estava demais! Subia nos sofás, nas camas e só não subiu na minha espreguiçadeira porque reparou o meu olhar fulminante, denunciando as conseqüências que ele ia sofrer se protagonizasse tal ato. Era engraçada nossa comunicação, eu nunca gritava com ele, só precisava olhar...e ele me entendia. Engraçado que isso nem com minha filha funciona! Deve ser o gene que me diz respeito; nunca fui obediente, Estella também não, logo, ta explicado.
Mas não vamos falar de minha filha; voltemos ao insuportavelmente inquieto Coelho.
Minha paciência estava em Saturno quando me vesti, pus a coleira no filhote e saímos pra dar uma volta. Se soubesse que a brisa estava tão gostosa, teria saído mais cedo. Ainda assim agradeci ao Coelho pelo pôr do sol que assistimos na praça perto do meu condomínio, comendo cachorro quente e tomando coca cola.
Na volta pra casa, decidi passar pela casa dos meus pais. Fazia tanto tempo que eu não ia lá; eles envelheceram e decidiram gastar a gorda aposentadoria do meu pai viajando pelo Brasil. Provavelmente eu ia dar de cara com Maria, nossa empregada desde meus tempos de ginásio, e ela me diria o de sempre: seus pais estão em tal capital, ou em tal hotel, “aqui está o telefone, querida!”. Não, eu não estava a fim. Eles sempre me procuravam quando estavam por aqui mesmo, eu não ia dar viagem perdida. Mas não ia custar nada cansar mais o Coelho; ele dormiria a noite toda e eu não ia precisar arrumar bagunça alguma feita pelo resto de energia que poderíamos ter gastado na caminhada. É, nós fomos.
Aquelas ruas onde brinquei de amarelinha a infância toda, aquelas casas com cheiro de feijão pro almoço e sopa pra janta, aquelas mesmas donas de casa sentadas na frente, conversando sobre a novela das oito, o bar ao lado da minha casa ainda reunia os mesmos barrigudos de bigode, suados do trabalho pesado, bebendo cerveja e beijando putas seminuas, velhas, gordas, da pele oleosa e cabelos cheio de creme barato... É, tudo normal por aqui.
Dona Mirtes, a vizinha da terceira casa após a que morei, me reconheceu.
-Helen! -Meu irmão me chamava assim e alguns idiotas adotaram; era o nome da diretora do colégio, que sempre me usava como exemplo pros meus colegas por ter boas notas. Como nossos nomes eram parecidos, todos me zoavam assim. "Hellen mirim!"
Eu odiava!
Meu nome é Helena! Maria Helena! Que inferno, por que meus momentos nostalgia sempre eram azedados por lembranças chatas? Eu devia ter levado Coelho pra casa, não me importaria de arrumar qualquer bagunça que ele fizesse, desde que não precisasse ouvir alguém me chamando por aquele nome asqueroso...- Como você está, querida? Seus pais já voltaram de viagem? O que a trás aqui...
Dona Mirtes parecia uma gralha desagradável, suja e tagarela. Eu queria ter respondido metade das perguntas que ela fez; e também queria minha língua ferina de quando tinha quinze anos, só pra mandar ela tomar no cu por ter me chamado...Daquilo.
-Eu vou muito bem, Dona Mirtes, e a senhora?- Tentei ser educada...Pra que? A velha pôs-se a falar da vida dela como se fosse o último capítulo da novela mais assistida do momento. Nem se fosse isso mesmo eu teria prestado atenção ao que ela falou. Baixei os olhos e fiquei observando Coelho fuçar um formigueiro, até que ele parou. Provavelmente uma formiga mordeu o focinho dele. Cachorro burro do caralho...
-Quando virá à minha casa para conversarmos e tomarmos uma sopa, talvez um café?
“Nunca, é claro, meu saco metafísico já não agüenta mais tanta ladainha!”
-Logo que puder, Dona Mirtes, eu ando trabalhando demais, tenho coisas para resolver; eventualmente eu passo por aqui, passeando com meu cachorro...
-Ele é adorável!- Ela me interrompeu. Vaca!
-...e passo em sua casa, para conversarmos mais. Ainda lembro do sabor da sua sopa, será um prazer.
-O prazer será meu, querida...- Eu comecei a andar com o Coelho-Volte sempre!
Nem me virei pra acenar, eu queria me livrar logo da arara cinza tagarela.
Voltando ao meu momento nostálgico. Cumprimentei mais alguns vizinhos antigos e fui parar na casa de Dona Lea. Era uma senhora interessante desde meus tempos de pirralha. Ela era hippie nos tempos de moça, ainda usava aquelas roupas folgadas, os cabelos compridos, óculos redondos, um ar esotérico; e eu, quando pequena, achava que ela podia prever o futuro, então tudo que ela me falava, virava profecia.
-Sabia que você viria! O sol está sobre a constelação de peixes hoje; você foi a primeira pisciniana que me veio à cabeça!
Ok, eu estava impressionada demais pra falar.
-Como a senhora está?- Eu estava realmente feliz, foi tudo que consegui falar enquanto ela me servia chá numa xícara de porcelana cheia de luas estampadas. Coelho brincava no quintal com uma bola.
-Muito bem, querida, aconteceram tantas coisas desde que você se mudou...
Eu me sentia enérgica demais diante da personalidade mais intrigante que conheci na vida; fiz todas as perguntas que me lembrei de fazer, até as que eu tinha desde minha infância. Não queria que o tempo passasse, eu precisava tanto daquele refúgio, daquele vapor de chá, do cheiro de incenso, fugir um pouco do meu mundo impenetrável e penetrar no mundo dela; só vim acordar às 21 horas, com Coelho dormindo no meu colo, exausto, e eu havia dispensado o chá (odeio chá!) e pulado pro café. Dona Lea me fazia sentir tão bem.
-Infelizmente tenho que ir agora; tenho essa criatura pra alimentar.- Fui me levantando com Coelho nos braços e dona Lea me acompanhou até o portão, andando devagar com sua bengala de madeira. Me virei para beijá-la na testa e recebi um abraço de mãe, terno, carinhoso, com cachorro e tudo.
-Você acredita em amor, Helena?- Ela perguntou comigo nos braços. Eu estava chocada demais pra responder tal pergunta. Aliás, nem respondi, só parei pra escutar.
-Não importa, ele acredita em você. Quando voltar, me mostre de novo esta esperança em coma que há em seus olhos castanhos, dessa vez, viva como você era aos seus oito anos.- Ela me encarou com seus olhos brilhantes -Certo, querida? -E sorriu amavelmente.
-Farei o possível.- Eu consenti.
Em casa, Coelho comeu e dormiu logo. Bem que eu gostaria de ter tido a mesma facilidade pra me entregar ao sono naquela noite. “Tudo que ela me falava virava profecia”.Meu misto de excitação e receio não permitiu.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Fumódromo.

Há exatos três meses que Frank se consumia. O término de um namoro de quatro anos lhe trouxe à tona seu maior medo: ficar sozinho. Era desesperador se imaginar dormir sem uma mulher do lado, terminar uma semana sem sua dose de progesterona necessária pra se considerar um homem “ativo”, não ter pra quem ligar quando precisasse de carinho (não que fosse romântico, mas era galante e mulher gostava dessas coisas), não ter o que contar sobre sexo na mesa de bar com os amigos; essas coisas que só uma mulher pode proporcionar ao ego de um machista. Precisava sair à caça, fazer logo uma vítima. Cama de homem solteiro sem movimento era sinônimo de falta de serviço; logo o Frank! O maior “pirigueteiro” da galera, sempre acompanhado de uma loura estonteante ou de uma morena de um metro e oitenta!
Não, não iria durar por muito tempo sua quarentena forçada.
Ligou o computador e analisou cautelosamente sua lista de contatos do sexo feminino. “Alta demais”, “independente demais”, “fala demais”, “sexo de menos”, “muito sentimental...” Nenhuma parecia atender aos seus critérios!
“Eureka!”.
Maria foi uma amiga e tanto nos tempos de faculdade. Faziam absolutamente tudo juntos, eram amigos inseparáveis. Trocavam idéias, confissões, segredos e vez ou outra orgasmos também. Era uma relação maravilhosamente saudável pros dois. Era garantia de sexo com amor, prazer e falta de compromisso; perfeito como goiabada com queijo. Mas Maria era meio louca e começou a namorar o Tavinho. Louca porque o Tavinho era o maior irresponsável da faculdade toda, o maior galinha que Frank teve a sorte de conhecer, além dele, lógico. Mas Maria estava tão apaixonada que Frank não teve outra escolha além de aceitar. Apoiou, deu-lhe o ombro e até apadrinhou a noiva, que por sinal estava linda. Sim! Tavinho e Maria chegaram a casar! E tiveram uma filha! Maria trancou a faculdade pra cuidar da família, deixou de sair com ele pras festas e farras e, quando ia, sempre voltava cedo pra pegar a filha na creche e cuidar do jantar.
Tudo muito lindo; parecia que Tavinho tinha tomado jeito até que Frank recebeu aquela ligação:
-Frank, se importa se eu for dormir na sua casa com Estella hoje?
Era estranho, mas nunca havia desamparado Maria antes, por pior que fosse o problema. Exatamente uma semana depois, Maria se mudava com Estella pra um apartamento ao lado; Tavinho e Maria se separaram após um ano de casamento. Foi tudo muito rápido, nem deu pra sentir o gosto de ter Maria “disponível” de novo. Tanto que Maria se mudou com Estella pra outra cidade e nunca mais se viram.
Foi realmente obra do acaso. Frank nunca foi de acreditar em destino, só podia ser o acaso lhe pregando uma peça. Das mais quentes! Não é que um dia, no café que freqüentava depois de dar suas aulas (Frank ensinava geografia numa universidade), se deparou com alguém muito parecido com Maria tomando café, fumando um cigarro e escrevendo algo numa mesa da área de fumantes?!
Precisava conferir mais de perto e, quando o fez, descobriu que, de fato, era a dita cuja!
Não coube em si de tanta emoção; aqueles anos deliciosos que os dois amanheciam juntos em qualquer lugar depois de uma noite de conversas profundas e sexo gostoso, as brigas na faculdade, as cachaças, as rodinhas de baseado...tudo aquilo lhe veio à tona! Havia encontrado seu principal eixo com a felicidade numa mesa do fumódromo de um restaurante!
Não pensou duas vezes quando resolveu se aproximar da mesa. Maria estava linda; os anos lhe trouxeram charmosas rugas quase imperceptíveis, mas que lhe davam um ar de mulher, por baixo do jeans ainda era possível notar as pernas fortes e torneadas outrora em vestidos leves e floridos, os cabelos ainda eram de um castanho intenso e brilhante. Ah, como queria ver o que seus lindos olhos castanhos haviam se tornado por baixo daqueles óculos de aro grosso.
Não tinha dúvidas: era Maria. Estava numa fase ruim, reencontrar sua amiga do peito e da cama lhe levantaria o ego.
Aproximou-se lentamente e falou:
-Maria?
Ela lhe levantou os olhos, tirou os óculos. Ainda eram lindos; com algumas olheiras, mas o tempo lhe trouxe um charme único de mulher madura e um nariz que exalava fumaça de cigarro; de fato era uma mulher feita e vivida, nada parecida com a Maria dos vestidos de seda e dos cadernos floridos nos tempos de faculdade.
-Quem é você?
A voz era ríspida, rouca, incrivelmente deliciosa aos ouvidos. O cigarro provavelmente havia prejudicado suas cordas vocais, porém lhe deram um tom grave à voz naturalmente rouca.
-Frank, Maria! Da faculdade; você fazia jornalismo e eu geografia! Não lembra?
Ela o olhou de cima a baixo, lhe arrepiou a pele com o olhar. Custou se conter pra não ter uma ereção.
-Claro que lembro! Como você está? Deseja sentar-se comigo pra tomar algo?- ela respondeu com um sorriso obrigatoriamente simpático.
Não era exatamente esse tipo de reação que ele esperava; achava que ela o receberia com festa, iria levantar-se, dar-lhe um abraço e infinitos beijos pelo rosto, conversariam um bom tempo e terminariam a noite bebendo no bar, depois num motel. Com certeza não havia correspondido sua expectativa.
Frank chamou o garçom e, como todo cavalheiro, mandou Maria fazer seu pedido primeiro.
-Wall Street duplo, puro e sem gelo.- ela pediu
Ele estava chocado com a classe genuína de alguém outrora tão simples e meiga.
-E o senhor?- perguntou o garçom
-O mesmo, com gelo, por favor.- respondeu
Pra começar, Frank não sabia onde pôr as mãos. Maria guardava suas anotações na bolsa, vez ou outra tragava o cigarro, bebericava sua xícara de café; lhe intimidava só com os gestos. Até que entendeu que não estava diante da Maria de alguns anos atrás; era uma estranha, feminista e incrivelmente sexy! Controlou-se de novo pra não ter uma ereção.
-Que anda fazendo da vida? –Ela interrompeu o silêncio inesperadamente.
-Dou aulas na universidade, estou trabalhando em um livro, ando ocupado com minha vida profissional. Acabo de sair de um namoro de quatro anos...
-Você não casou?- ela interrompeu
-Não, prefiro esperar o momento certo-ele concluiu. Estava ansioso pra chegar à parte que despiria os fatos ocorridos com aquele ser espetacular do outro lado da mesa. Não queria despir só os fatos...
O garçom sentou os copos na mesa. Maria deu um gole considerável na sua dose antes de Frank interromper o silêncio.
-E a sua vida? Conte-me o que aconteceu com você nesse tempo que não nos vimos.
Ela ajeitou-se na cadeira e começou a falar:
-Depois que sai do prédio que você morava, levei Estella pra morar em outro lugar longe do pai, quando descobri que o Tavinho havia aberto um processo contra mim; ele pediu a guarda da Estella e ganhou.- Ela parou e tragou o cigarro. –Comprei um apartamento na cidade onde o infeliz morava com a mãe pra ficar perto da Estella e a levo pra casa dos meus pais no fim de semana ou pro meu apartamento, que é quando eu posso ficar com ela. Estou trabalhando num jornal, ainda fumo nossos baseados e ainda bebo como antes, além do cigarro. Talvez eu tenha perdido minha filha por isso, mas não importa; ela será educada pela avó católica beata e o pai ex-viciado. Até lá, só preciso me manter sóbria quando minha filha estiver comigo e ver se ainda posso fazer algo por ela, já que foi o único amor que conheci na vida; quando não, bebo, fumo, trabalho, existo, cuido do meu cachorro e sou feliz no meu apartamento sombrio cheirando a lugar velho.
Era um relato impressionantemente frio e lacônico. Perder a filha tornou Maria uma casca vazia e impenetrável. Ou teria sido a trajetória como um todo? Frank se perguntava se havia espaço pra um homem na vida de Maria. E na cama, eventualmente.
-E você não tem um namorado? – Ele perguntou tentando ser simpático.
-Eu tenho o meu cachorro.- Ela respondeu soltando a fumaça de um trago.
-Mas você faz sexo com seu cachorro?- Os dois caíram num risinho que, em outra época, seria uma gostosa gargalhada.
-Em qualquer lugar se encontra sexo hoje em dia, meu cachorro ainda não precisa cumprir tal ofício.- Ela falou num tom de deboche, frio, superior. De fato Frank estava intimidado com o que Maria havia se tornado. E excitado também.
Quase uma hora de papo e Frank já estava se perguntando em como chegaria à parte de trocarem telefones. Apesar de implacável, ele sabia que Maria adorava um convite repentino. Até que Maria começou a dar indícios que iria embora.
-Como faremos pra nos encontrar de novo?- Ele perguntou.
-Se a sorte for legal mais uma vez, nos topamos por aí. Espero estar sóbria de novo pra lembrar. Se bem que o fato de você ter me encontrado e, ainda por cima, sóbria já é sorte em dose dupla. – Ela jogou dez reais na mesa pra dose de uísque que tomou e levantou-se -Espero que eu não tenha broxado sua intenção de não passar a noite sozinho. Boa sorte!
Ela sorriu e virou-se em direção à porta e saiu com o mesmo rebolado estonteante dos tempos de faculdade, deixando pra trás um Frank escandalizado.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Insônia.

Dedico a Daniele B.
Que segura todas as barras mais sujas e pesadas com ela.
E que nunca a deixou matar um sentimento que valesse a pena.

M.H


Marília estava minguando.
Era um sentimento forte, que a consumia, que lhe prometia noites sem dormir, dias sem comer e horas sem descanso. Queria tanto descansar, aproveitar essa nova fase de sua vida pra investir no que queria ser, moldar o que viria a ser sua personalidade, deixar que a alegria e empolgação dos próximos dias lhe tomassem a alma.
Porém algo tomou todo o espaço reservado pra tanta euforia: paixão.
Ou amor, mas não queria acreditar que fosse isso; não acreditava que esse bicho existisse.
Como uma cólica mestrual, o sentimento havia chegado na hora errada e, de primeira, pensou em esperar chegar sua vez. Passou uma, duas, três semanas e tudo corria tranqüilamente, sem qualquer alteração nas palpitações cardíacas, tudo sob controle.
Passou um mês e Marília nem sentiu quando os dias de convivência chegaram. Malditos dias de convivência; tornavam tudo mais difícil, impossível de se conter e de se deixar influenciar.
Primeiro a insônia, o cansaço e o desânimo lhe trouxeram algumas olheiras disfarçáveis com maquiagem, alguns cabelos brancos imperceptíveis e um tom de voz mais grave, falso aos ouvidos dos amigos mais próximos.
Depois a impaciência. Pra que esperar tanto por algo que ela nem era certa que um dia poderia se realizar? Pra que tanto trabalho em manter vivo um sentimento insano, que a tornava insana, que lhe causava arrepios e, até certo ponto, desgostos? Ela precisava de um motivo para mantê-lo vivo. Procurou nos dias, nas noites, nas palavras, nas músicas, nos amigos, nos abraços, nas aulas, nos cantos, em baixo da cama... Não encontrou em lugar algum!
E, finalmente veio o desespero. O que antes eram sorrisos de expectativa pros próximos dias se tornaram lágrimas amargas, noites, além de mal dormidas, mal vividas, conversas mal aproveitadas e um cheiro insuportável de enxofre.
Sim, leitores! O que antes cheirava a rosas, agora só deixava um odor fétido de enxofre!
Marília queria, com todas as forças de sua alma, matar aquilo, transformar-se e transformar o próprio sentimento em algo vazio, morto, putrefato.
Suportável.
Nunca precisou de tanta paciência, nunca precisou esperar tanto, apesar do pouco tempo. Absurdo querer matar algo tão puro, joga-lo numa vala fétida, tornar-se a própria vala. Mas era necessário pra ela, naquele momento de desespero. Não suportava mais esperar pelo que ela nem sabia, só estava ciente que precisava esperar. Paciência; algo que Marília nunca teve.
Porém depois de uma madrugada amarga sempre amanhece um sol saudável, vistoso e esse amanheceu sorrindo também.
E daí se nunca teve paciência pra nada na vida?
Não era esperar que a fazia sofrer; era a idéia de estar sentindo algo tão lindo e não ter peito pra suportar. Era admitir que havia descoberto algo que a fizesse tão bem quanto afagos de mãe e ter que abdicar disso por puro medo. E impaciência.
Era o fato de nunca ter sentido aquilo antes e, como todo ser humano, algo novo a assustava.
E algo novo e tão forte, tão puro, tão sincero a assustava ainda mais. Era muito pra sua cabecinha em formação, que, além de estar aprendendo a lidar com o reconhecimento de si mesma, ainda tinha que sobrar espaço, tempo e dedicação a essa coisa que tomava cada vez mais espaço dentro dela. Era demais, mas não era impossível!
E o sol lhe trouxe uma mensagem.
“Vou te ajudar a suportar, a esperar e esbofetearei sua cara quando for necessário. Você vai aprender a fazer cada minuto valer a pena”.
E mesmo que não valesse a pena, mesmo que esperar não lhe levasse a lugar algum, estava disposta a aceitar que aprender a esperar, a manter-se firme, a não desistir (é clichê, mas é verdade!) faria com que nada disso fosse em vão. Por mais amarga que fosse a espera.
Marília levantou, tomou banho, se arrumou, tomou café e foi trabalhar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Efeito Placebo.

A situação era inesperada. Completamente inesperada.
Uma saída com uns amigos e uns amigos de amigos e Aline se viu encantada com e pelo menos encantador de todos na roda.
Ele era magro, baixo (da altura dela... bom, qualquer um era mais alto que ela!), cabelos desgrenhados, olhos míopes escondidos sob óculos de aro grosso, barbicha no queixo (nunca tinha visto barbeador, com certeza), andar desengonçado, enfim; tudo o que ela não queria.
“Um nerd? Era só o que faltava! Eu aqui trocando indiretas com um nerd!”.
Complicada a situação.
Tudo aconteceu em flashes e lapsos de memória. Primeiro aquela noite na casa do Lavinho, tomando cervejas e conversando lorotas no quintal, sob o céu estrelado na noite de sexta, depois das aulas. Algum tempo depois (ela não sabia exatamente quanto), estavam os dois, ela e o tal nerd, no mesmo quintal, tomando cerveja, numa posição, até certo ponto, íntima (ela deitada com as pernas por cima dele, recebendo beijos na batata e no tornozelo; a sensação era ótima, por sinal), conversando sobre as férias que iam chegar, Beatles e consumismo (nada a ver? Não pra eles!).
De qualquer maneira, por mais estranho que fosse namorar aquele biotipo toda a vida renegado, além de ser uma experiência nova e inusitada, era ótimo! Fabrício (como se chamava o tal “Príncipe Encantado Nerd”) era carinhoso, atencioso, bom de cama, gentil, falava manso (e também sabia falar grosso quando necessário), tinha personalidade, caráter, inteligência...Aline nunca se sentiu tão amada por alguém na vida; só pela mãe, mas esse era outro tipo de amor.
Fabrício amava demais Aline. Falava de amor em todas as situações, tomou-lhe a virgindade como quem toma uma pérola de uma ostra, abraçava-a todas as tardes antes das aulas e dizia-lhe no ouvido que a amava, não tinha a menor vergonha de parecer um escrotinho apaixonado (de fato ele o era!) e ainda tinha tempo de procurar sempre uma maneira de deixa-la feliz. Era a mulher de sua vida, no momento, e queria que o momento se tornasse eterno; e com certeza ela sabia disso!
Andavam sempre juntos, combinavam em muitas coisas e divergiam em muitas mais; mas, essencialmente, se amavam.
E era tudo lindo, com direito a gramados enluarado e afagos na nuca.
E Aline acordou suada e ofegante depois de um sonho daqueles que não são só vistos, mas sentidos e desejados.
Por que ela não desconfiou desde o princípio? Pra ser tão bom assim, só podia ser sonho!
Se jogou pra trás e enfiou o travesseiro na cara, querendo morrer sufocada ali mesmo, sob a espuma molhada de suor.
Era amor demais, ela era amada demais, ela amava demais. Foi bom enquanto durou o devaneio; e acordou mais disposta a tentar encontrar o amor no tal nerd, ou em qualquer outra forma de vida que lhe explicasse o significado daquilo tudo. Até porque ela queria a sensação de novo.
Em vida real.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Historinha de Carnaval.

Noite de sábado de Zé Pereira e as ladeiras de Olinda estavam apinhadas de foliões, bêbados, passistas e bonecos gigantes, embalados pelos clarins das bandas de frevo e seus músicos suados e quase sem fôlego.
Era mágico participar de tudo aquilo, Talena estava feliz; era seu primeiro carnaval em Olinda, em compainha de alguns amigos da faculdade e (muitas) latas de cerveja. Pulava, dançava, tentava cantarolar, sem sucesso, as melodias populares da região...o barulho ensurdecedor não permitia que ouvisse o som da própria voz. Mas ninguém se importava, até por que se quisessem silêncio, teriam procurado praias semidesertas.
As cervejas acabaram e Talena se ofereceu pra ir comprar mais num bar próximo. Recolheu o dinheiro e dirigiu-se ao bar acompanhada de Aline, uma colega de turma. Enquanto esperavam as cervejas no balcão, puseram-se a conversar sobre o quanto era legal o carnaval ali, já que o som agora tinha dado uma trégua.
-É como viajar no tempo dos meus avós e curtir toda a inocência e alegria dos foliões!- Dizia Aline eufórica.
-Com certeza! Olinda foi mesmo a melhor opção para...
Talena não conseguiu terminar a frase ao observar que do lado oposto do balcão, estava Eric, um ex-namorado galinha e imaturo, com uma morena igualmente desinteressante pendurada no pescoço.
Ela quis morrer: fez questão de passar o carnaval em Olinda pra não ter o desprazer de topar com aquele infeliz no Recife Antigo e lá estava o delinqüente protagonizando uma cena desprezível e manchando de preto o colorido alegre do carnaval, até então, agradável.
-Viu fantasma, Lena?- Perguntou Aline preocupada com a repentina mudança de feições de sua amiga
-Antes fosse, ao menos não estaria tão aborrecida.
Aline virou-se pra onde Talena estava olhando e entendeu o porque da cara zangada dela. Pegou as cervejas e arrastou Talena pra fora do bar antes que houvesse uma brusca mudança no humor de Talena e ela fosse pra casa.
Talena estava tão concentrada em se divertir que o incidente no bar logo foi esquecido e no domingo já estavam todos ladeira a cima de novo, com a mesma euforia e excitação.
Algumas cervejas e muitas horas depois, todo mundo estava alegre demais pra voltar pra casa no meio da madrugada; resolveram sentar pelos bancos de uma praça próxima, esperar o dia amanhecer pra aparecer alguém em condições de dirigir a van que haviam alugado pra se transportar aos pólos de folia. Foi nesse momento que Talena conheceu Fernanda. Era bonita, olhos quase verdes, corpo esguio e moreno de sol, cabelos lisos, baixinha; e estava esperando alguns amigos pra voltarem pra casa juntos. Eram quase quatro da manhã quando trocaram telefones e um beijo; Talena era bissexual desde os 14 e Fernanda, se não fosse, não denunciou. Despediram-se sob a promessa de se verem à noite de novo, na mesma praça algumas horas mais cedo; se comunicariam pelo celular.
A segunda já foi menos movimentada. As ladeiras ainda estavam cheias, mas Talena e seus amigos decidiram ficar na mesma praça que esperaram o dia amanhecer ao invés de pular atrás dos blocos pelas ladeiras. Quase meia noite quando Talena sentiu o celular vibrar. Em meio aos gritos e à música altíssima, ela ouviu algo como:
-Talena, é Fernanda.
-Pode falar.- Ela respondeu.
-Não vai dar...Hoje...Meu namorado...Aqui...Outro dia?
“Uma bi comprometida... ótimo, Talena!” Ela pensou.
Foi tudo o que Talena entendeu. Não estava decepcionada, nem magoada, era só uma ficante; quantas não faziam aquilo ou coisa pior?
-Tudo bem, linda, nos falamos depois. Até mais.
Talena desligou ciente que aquele “depois” e o “até mais” obviamente não existiriam nunca. Agora era só aproveitar o resto da noite e os blocos com seus foliões animados.
Até que Talena com os olhos perdidos na multidão viu Fernanda pendurada no pescoço daquele seu ex-namorado...Como era mesmo o nome dele?
* Gargalhadas internas *
Agora sabia porque aquele rosto lhe pareceu tão familiar uma noite antes.


Bom carnaval, estimados leitores!

E nada de pílula do dia seguinte!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Compulsivamente

Naqueles dias que não deviam ter raiado
Que nada dá certo, que até os programas do dia seguinte são desmarcados
Que expectativa é uma mera palavra sem gosto e significado
Que a vontade é deitar e olhar pro teto ouvindo Joplin no repeat automático
Que até o clima contribui para a pseudo-depressão...chove!
Que a vontade que dá é topar com o mais odiado dos seus ex-namorados e mostrar o quanto você está mais desejável
Só pra o dia ter um pouco de emoção...

Que a vontade que dá é postar aquela carta que você escreveu pra quem mais odeia(!)
Que o telefone pede que você ligue pro seu amor platônico e abra o jogo
Que seus olhos castanhos seriam melhor verdes
Que você não precisa levantar pra fazer unha e escova; você não vai sair mesmo
Que até o fogão parece convidativo, mas o tédio não dá fome
Que você troca o new metal por mpb
Só pra o dia ter um pouco de emoção...

Que você banaliza o "eu te amo" nosso de cada dia
Que você finalmente parou pra afinar o violão
Que a casa vazia na penumbra é o cenário perfeito pra começar uma crise de choro
Que você quer matar ou morrer
Que tudo seria melhor com um pouco de sal e menos preguiça
Que você se aventuraria por aí com quem acabou de conhecer
Só pra o dia ter um pouco de emoção...



A tal da mente vazia é foda!

sábado, 19 de janeiro de 2008

Meu primeiro amor.

Sinceramente não sei o que vai sair daqui, mas estou com uma necessidade absurda de escrever. Carências à parte, vamos trabalhar que o leitor é curioso e eu, impaciente.

Ela tinha esse hábito desde criança. Copiava as historinhas em quadrinhos da turma da Mônica e, quando completou dez anos, ganhou seu primeiro diário; ela não sabia que o presente mudaria sua vida pra sempre. Ele era grande: tinha cerca de trezentas folhas, e ela anotava coisas até nos rodapés das páginas. Se ganhava um bom-bom, colava o papel nele, se chorava, molhava uma página com uma lágrima: era seu companheiro inseparável.
Chegou aos onze com o mesmo diário, que a acompanhava pra todo lugar. Sempre estava na mochila, e ela protegia com a vida, já que não tinha chave.
Junto com seus onze anos, vieram as primeiras paixões de infância. Marcelo foi seu primeiro “amor arrebatador”. O diário tinha páginas e mais páginas com corações coloridos com hidrocor o nome dela escrito com o dele. Ela guardava seu amor, Marcelo e sua alegria ali.
Um dia conseguiu uma foto dele, e onde ela foi parar? No diário, lógico! Ela colou numa página que fez questão de colorir, colou com cola e glitter, enfim...ficou lindo!
Ela dormia olhando pra foto; não se admirava mais ao acordar com o bendito diário na cara.
Certa vez deixou a mochila na arquibancada e foi jogar queimada com as meninas na quadra. Tudo foi muito divertido, com risos, muita poeira nas saias e rabos de cavalo. Foi uma manhã espetacular; ela gostava das aulas de educação física pra ficar com as amigas jogando queimada ou conversa fora mesmo. Foi pra casa feliz.
Quando chegou ao colégio, no outro dia, todos, meninos ou meninas, mais velhos e mais novos, olhavam pra ela e disfarçavam um risinho com as mãos. Não era pra ela, lógico. Não podia ser pra ela. Pelo menos preferia acreditar que não era dela que estavam rindo. Continuou caminhando, com a cabeça erguida, sorrindo falsamente aqui, ali, disfarçando porque estava sem graça. Não demorou muito pra saber o motivo de tamanha euforia dos seus colegas: Marcelo estava sentado num banquinho qualquer do pátio, rodeado de meninos da turma dele. Estavam todos lendo entretidos algo que parecia um livro. Olhou mais de perto, se aproximou e qual foi a surpresa quando viu que o motivo de tantos risos clandestinos era nada menos que...
-MEU DIÁRIO!
Como havia parado ali não sabia, mas com certeza não tinha dado a falta dele, já que quem arrumava suas coisas, era a mãe. Aliás, um dia antes daquele foi um dos poucos que ela não pegou no diário.
Todos riam da cara dela, descobriam seus segredos, viam seus desenhos; inclusive os corações com o seu nome e o de Marcelo gravado e a foto dele, colada com cola colorida. Queria morrer. Não acreditava que aquele que julgava ser o amor da sua vida, aquele que ela queria como um namorado, que ela sonhava passear de mãos dadas, trocar presentes no famoso doze de junho, estava lhe ridicularizando, ridicularizando seu sentimento, seu amor! Ficou cega; arrancou o diário das mãos daquele canalha (sim, foi essa a palavra que lhe veio à cabeça na hora!) e bateu na cara dele com a capa dura; ele fingiu que não doeu e começou a rir. Não suportou o deboche e pulou em cima dele; bateu na cara dele até o nariz sangrar e os arames arranharem o rosto, desmanchando o sorriso sarcástico. Quando ela viu os inspetores se aproximando não pensou em outra coisa; correu pro banheiro e lá ficou a manhã toda chorando trancada num boxe, apesar dos gritos da sua mãe e dos apelos da diretora do colégio para que se afastasse para arrombarem a porta.
Mas ela não desencostou da porta, praguejou a todos, amaldiçoou o jogo de queimada, que fez com que se desligasse da mochila; não deixaria que a humilhassem de novo.
Maria Helena foi expulsa do colégio e talvez por isso ainda escreve, mas não com tanta e nunca com a mesma emoção.

domingo, 13 de janeiro de 2008

"Quanto vale um suspiro"- sob um outro olhar.

Antes de ler, clique aqui. Se já leu, desconsidere a breve interrupção.

O hospital estava no auge da correria. Era inverno e as chuvas em São Paulo faziam as mais diversas vítimas; desde acidentados até viroses. Trabalho dobrado para os enfermeiros e * estava quase louco. Nada que não pudesse dar conta, até porque sabia que ser enfermeiro era lidar com a vida dos outros num ritmo alucinante. Além de ter aprendido a sobreviver ao cheiro de doença, aprendeu também a driblar as cantadas das outras enfermeiras e médicas do seu setor. Conseqüência do charme natural e dos cabelos desgrenhados que lhe davam aparência de menino carente, além da voz grave e do andar másculo.
Sair do hospital depois do plantão era mergulhar num universo paralelo delicioso, onde só existiam ele, uma garrafa de vinho ou cerveja, Stone Temple Pilots tocando à meia altura, enchendo de cor o apartamento iluminado pela débil luz do dia nublado e a vizinha do apartamento em frente, no prédio do outro lado da avenida. Disfarçadamente contemplava a silhueta da morena esticada na espreguiçadeira da sala, sonhando acordada, solitária, segurando numa das mãos algo que parecia um papel e na outra uma caneca cheia de alguma coisa, ouvindo algo indistinguível, mas com certeza era tranqüilo. Sempre que voltava do trabalho, * olhava em direção à janela dela na esperança de vê-la antes de adentrar os portões do seu prédio. E continuava a fazê-lo quando sentava na poltrona depois de ligar o som.
Era um misto de desejo e adoração. Vê-la de camisão preto, tomando e ouvindo qualquer coisa, despertava em * os mais deliciosos calafrios e um instinto protetor que um homem só sente duas vezes na vida: diante da mãe ou de um filho. Era rotina procurar, dentre as mil maneiras, uma para dirigir-lhe a palavra quando se encontravam, eventualmente, na padaria. Mas quando encontrava uma, ela já estava recolhendo suas compras e indo embora. * se desesperava ao vê-la ir, mas excitava-se como uma criança e um brinquedo novo ao vê-la no janelão de seu apartamento. E seus devaneios construíam uma ponte interligando os dois prédios, ela vinha caminhando linda e segura sobre ela e caia direto nos braços dele, com um cheiro maravilhoso de vinho no hálito quente e de sabonete na pele bronzeada, dizendo (por que não?) “*, eu te amo!”.
Era loucura. Nem se conheciam, mas de alguma maneira, se amavam. * se sentia o pior dos idiotas, sonhando com alguém que nem sabia o nome. Ela só lhe despertava as mais loucas fantasias... isso.
“À merda com o pudor! O que me impede de ser feliz com ela? Se não der certo não seríamos o primeiro casal do mundo a se separar! Pronto!”. Pensar nisso o assustava, porém mais louco ainda era pensar em como um dia estariam juntos. “Birutices de um idiota apaixonado” dizia pra si mesmo. Mas quem é mais feliz que os idiotas apaixonados? Que se entregam de corpo e alma para alguém que nem conhecem em troca de migalhas de atenção? * era um deles e nada o deixava mais contraditoriamente feliz que isso.
Num fim de tarde chuvoso, depois do expediente, voltando para casa com os ingrediente para uma macarronada no pacote pardo da padaria, sob o guarda chuva, mal pode acreditar no que estava vendo: ela saia correndo do prédio que morava em direção à avenida. * sentiu o coração disparar e as pernas tremerem quando percebeu que ela corria em direção ao prédio dele, mas continuou andando. Talvez fosse visitar alguma amiga que morava lá, não importava; ia convida-la pra entrar, se secar perguntaria quem ela procurava enquanto ela secava os cabelos com uma toalha dele, ouviriam Stone Temple Pilots, comeriam a macarronada, dormiriam juntos...Seria maravilhoso!
*
viu seu devaneio destruído por um sedan preto que esmagou o corpo frágil e molhado de sua amada desconhecida, quando ela tentava atravessar a avenida sem perceber o semáforo verde. Sem pensar, largou o pacote, pegou-a nos braços e colocou-a no carro de um senhor solidário que se ofereceu para socorrer a acidentada. A única coisa que * pode ouvir foi um “eu te amo” quase inaudível vindo dela em seu último suspiro. Ao ler o laudo médico, soube que ela morreu de parada cardíaca e que se chamava Clarissa.