quinta-feira, 5 de maio de 2011

Partes de Boneca


Minha TPM tem vontades próprias.
Ela me acorda de mau humor, me chuta pra fora da cama e me joga debaixo do chuveiro frio de maneira brusca. Grita o tempo todo dizendo que quer paz, que tá cansada de mim e da minha cara feia e que vai matar mil porquê ela é cabra homem. Minha TPM não tem noção de limites e quer tomar cerveja antes do café da manhã fumando um cigarro. Ela quer desfilar de calcinha e camiseta pela casa mas não quer que ninguém a veja porquê ela tá se sentindo gorda, cheia de celulite e pelancas. Minha TPM me pede pra tocar Björk. Eu toco. Duas ou três frases reflexivas depois ela quer voltar a ouvir as músicas mais depressivas do Hole e eu não posso fazer nada; vai você discutir com a minha TPM. Minha TPM quer um namorado, muito dinheiro e uns quilos a menos pra superar pelo menos metade das frustrações que ela sofreu nos últimos seis meses, mas é só lembrar dos relacionamentos anteriores pra tudo que ela quer se resume em quatro paredes, um prato de brigadeiro e um filme bem triste pra chorar o que tiver de chorar. Minha TPM não sabe se distrair lendo, tocando violão ou tomando café: ela quer se destruir, se olhar no espelho e se xingar, bater na própria cara e ver o rímel virar sombra, e a cara de bunda virar cara de panda.
Minha TPM é tão louca que esse mês ela resolveu se jogar na balada pra voltar de alma limpa e adivinhem! Chegou em casa, tomou banho e se jogou na cama pra... chorar!
Minha TPM é pior que filha adolescente que levou um fora do primeiro grande amor eterno de sua vida, ela chora no teu colo dizendo que te ama e depois te enxota do quarto como se você fosse um psiquiatra com uma camisa de força.
Minha TPM quer matar todo ser que respire, principalmente do sexo oposto, "esses insensíveis que olham pra mim e só vêem uma vagina que anda e podia não falar", como ela mesma diz. Minha TPM reclama que é burra demais pra ter dinheiro. Chata demais pra despertar interesse em alguém. Preguiçosa demais pra ser bonita. Amarga demais pra ter amor. Tudo nela coexiste em proporções catastróficas que nem ela mesma consegue entender como tanta coisa negativa cabe num corpo tão pequeno.
Mas a melhor parte é quando ela volta bêbada e cambaleante da faculdade, ou da casa de um amigo, ou até mesmo daquela volta que ela foi dar pra se distrair, com aquela cara de quem fez merda e vai acordar de ressaca moral. Se joga no chuveiro de cabeça já pensando na juba leonina que o cabelo vai tá quando ela acordar. Senta na internet e começa a denegrir a própria vida em público (ela adora um escândalo, já mandei ela parar com isso). Ela também sai recusando todos os convites de evento no Facebook, já que ela não tem dinheiro, nem roupa nem personalidade pra aparecer em nenhum deles.
Minha TPM também detesta demonstrações públicas de afeto alheia. Ela não chega a invejá-las nem desejar que elas não aconteçam: elas só não podem acontecer perto dela. Nem debaixo das fuças dela. Nem a menos de 600 km de distância dela, ela quer distância de tudo que lembre sorrisos de amor passional.
Minha TPM só se sente útil quando vai embora. Ai ela me deixa em frangalhos, cheia de pedidos de desculpa pra distribuir pra todos que eu quis estrangular, esfaquear, estrangular, envenenar e empalar. Os mesmos pedidos pra quem eu gritei, praguejei, esnobei, dei foras, cortadas, falei coisas estúpidas e sem sentido.
Menos meus ex namorados, todos eles merecem uma Maria Helena de TPM.
Não, melhor: todos eles merecem ter um útero uma vez por mês.
Mas voltando a minha TPM, nesse momento ela tá ouvindo Doll Parts na frente do PC agarrada com um prato de brigadeiro gelado, chorando os quilos que ela vai ganhar, praguejando contra o cabelo que tá feio que dá dó e escrevendo isso que você tá lendo.

And someday you will ache like I ache...

3 comentários:

Adriano Sobral disse...

Parabéns pelo blogger senhorita Sobral !!!

Rosângela Briân disse...

Nossa, minha TPM, tá revoltada, ela achava que era a rainha absoluta da Tpmlândia.adorei! vou seguir.

Caroline Nahed disse...

Adorei o teu texto, mesmo que meio dramático, me fez rir