quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sobre a ironia do tempo [3]

Anatômica.

Se o clima não estivesse tão quente, nem o quarto tão pequeno, nem o amor tão longe, nem as garrafas tão vazias, nem as carteiras de cigarro tão amassadas, nem a mãe tão perto, nem o trabalho tão tedioso, talvez Ana não quisesse explodir. Aquele forró horrível tocando ao longe, uma porcaria qualquer que ela chamava de fuleiragem music, dava-lhe vontade de ir até a janela e gritar pra qualquer filho da puta que passasse na calçada que desligasse aquela merda depreciadora do corpo feminino. Mas e Ana? E esse misto de coisas que se passavam na sua cabeça? E o tédio? A completa falta de emoção e cuidado consigo própria? E a vontade de sair na rua de camiseta e calça jeans só pra ver se ainda era desejável mesmo gorda, cheia de espinhas e celulite (era assim que se via no espelho, mas com certeza era exagero de sua mente deturpada)?
Tudo isso ia embora, ela só queria chorar. Talvez nem soubesse o motivo e isso a deixava ainda mais desesperada. Ana saiu, foi ao cine ver um curta, “O velho, o mar e o lago”. Ana chorou. Puta merda, Ana! Você também chora com cada besteira! E Ana nem ai. Queria ir pra casa, se arrependeu de sair e procurar estar no meio de tanta gente.
Voltou, enfiou-se no quarto, tão fundo que quando sua mãe entrou para chamar-lhe pro jantar sequer a viu encolhida num canto com o mp4 explodindo nos ouvidos. Pegou o telefone, ligou pra aquela melhor amiga que tava sumida, mas sempre atendeu seus chamados desesperados. Mais choro, reclamações, era um tal de “eu quero gritar” que ela não aguentava mais. E gritou.
Ana saiu do quarto um bagaço, com a maquiagem borrada, descalça, com o jeans desatacado e arrastou-se pro banheiro. Vomitou na privada, tomou um banho demorado, botou uma roupa limpa e dormiu.
No meio da noite, sangue. Muito sangue no short e na cama. Ana menstruou.
No banho Ana começou a rir quando lembrou que não queria explodir. Na verdade, era TPM.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sobre a ironia do tempo [2]

Analítica.

Ana era uma pedra. Um cubo de gelo. Não, uma pedra mesmo, gelo derrete; Ana não derreteria nem no inferno. E Léo sabia disso. Tanto que quando Ana bateu no seu carro naquela manhã ensolarada de sábado ele nem dialogou muito quando ela foi descendo do carro assinando o talão de cheques, e perguntando quanto ele queria pelo dano causado. O cachorro dela, um dálmata, desceu do carro no seu encalço. Porém os cabelos vermelho-berrante dela não o deixavam olhar pra outra coisa que não fosse aquela silhueta quase atlética envolvida numa canga de praia azul.
-Mas você não vai nem discutir? Perguntar se eu estou louco ou cego?
-Tenho cara de quem tem tempo pra isso?
E ela foi embora. Cantando pneus e tudo. Os danos nem tinham sido tão grandes, mas só o fato de uma desconhecida ter batido no seu carro e sequer ter discutido lhe deixou intrigado. E foi pra casa pensando nela, em como encontrá-la, no que falar pra ela.
Ironicamente, Ana sequer lembrava da cara do infeliz do semáforo da rua 15. E se passaram quatro anos nessa ironia quando, ironicamente, Léo, distraído pensando na desconhecida, bateu na traseira de um Fox preto, com um macaquinho pendurado no pára-brisa. Dele, saiu uma mulher. E qual não foi sua surpresa quando reconheceu aqueles cabelos vermelho-berrante da pedra que havia batido em sua traseira quatro anos antes. A diferença é que essa falava. E falava muito.
-Você tá louco, seu filho da puta?! Não viu o semáforo vermelho?!
Ele estava atordoado. Não sabia se realmente era ela, sequer lembrava se o carro de quatro anos atrás era o mesmo. Só lembrava da cena, e do cachorro. Não precisou pensar muito pra lembrar que era um dálmata. E também não demorou muito pra um dálmata botar a cabeça do lado de fora da janela traseira, seguindo a dona com o nariz, como quem quisesse saber pra onde raios ela ia. Era ela, definitivamente. E Léo não esperaria quatro anos novamente.
-Quero ressarcimento, você entendeu? Meu carro não tem nem um mês e aparece um palhaço...
Ele a beijou. E todos os seus anseios foram embora.
Quatro anos se passaram. E eu acabei de receber o convite pro casamento dos dois.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sobre a ironia do tempo.

Anacrônica.

Fora do tempo, fora de casa, Ana, que nunca havia fumado, bebido ou trepado, se vestia em um quarto estranho, numa cama estranha, onde um estranho dormia. Eram 7h da manhã de um sábado chuvoso. É... havia muito o que fazer. Meio atordoada, cambaleante com o peso do próprio corpo, fraca de tanta vodca, arrastou-se até o chuveiro, onde a água quente molhou-lhe os cabelos, a pele e as tatuagens. Vestiu-se, foi embora dali, pra onde não pretendia voltar, apesar de não saber onde exatamente era ali. No ônibus, muitas vozes, muitos olhares, alguns não tão amigáveis, outros indiferentes. Chuva. Escorre pelo vidro, deforma ruas, carros, postes e rostos. Ana, deformada, suja, e feliz.
Em casa, Ana toma seu café, acende seu primeiro cigarro. O primeiro depois do primeiro, que gesto mais estranho! Não liga. Liga. A TV. Alguém fala de enxurradas, desmoronamentos, comercial de café. Ela desliga, pega um livro, lê algo e dorme. No sofá mesmo, pra quê levantar?
Dias. Meses. Anos. Exames de rotina. Urina, fezes, prevenção, mamografia, ultra-som e sangue. A vaca da enfermeira era indelicada com a agulha, machucou. Não doeu, só machucou. E daí? Ana nem queria fazer aqueles exames mesmo, foi só pra tapar a boca da mãe. 4 dias pro resultado, posso voltar ao meu apartamento, doutor?
4 dias, dia 4. Ana foi buscá-los. Os exames? Não, antes tem os pães na padaria, e o café fresquinho da esquina. Ai vêm a vez dos exames. Tranquilidade. O médico abre, Ana mastiga um chiclete. A cara dele... nossa, as notícias não são boas. Anemia? Falta de vitaminas? Infecção urinária? Intestinal? Gastrite? Labirintite? Anorexia?
Não, Ana. Você tem HIV.
Logo Ana, que nunca havia fumado, nem bebido. Nem trepado.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A prostituta

18h, saída da BR 232 com a Caxangá. Ela me olha do muro onde está encostada. Fuma um cigarro barato e prende o isqueiro na calcinha por baixo da micro saia. O beco está quase deserto, com excessão dos carros que passam na BR perpendicular. Carrega na bolsa preservativos, anti concepcional, celular, um bloquinho, caneta, suas alegrias, tristezas, lágrimas e decepções. Será mais uma poetisa marginal? Uma relatadora de causos? Já consigo imaginar um título para seu próximo livro: “Memórias do Hotel Paraíso volume III”. Na bolsa e nos olhos, na bolsa dos olhos. Meu carro parou no semáforo e desde então ela me encara. Com olhos desafiadores, provocadores, tristemente insinuantes. Eu não sei se fecho o vidro, se continuo naquele momento tão íntimo entre dois estranhos, se pego o acostamento e fujo do trânsito e dos olhos devoradores da concubina da esquina do beco ao lado, se abro a porta do carro e a levo para um motel para me fazer feliz, ou se a levo para minha casa para fazê-la feliz. O semáforo abre, lentamente os carros se movem, ela acompanha o meu até certo ponto, quando pára e acena um adeus. Eu paro o carro, a luz da ré acende, consigo ver seus olhos surpresos e, mesmo louca de curiosidade pra ver meu rosto e saber minhas intenções, permanece parada em cima dos tijolos quebrados da calçada. É quando desisto. Ela não viveria sem essa vida. Eu não viveria sem ela. Melhor deixá-la enquanto minha obsessão não a sufoque.

sábado, 31 de outubro de 2009

2001: uma odisséia no espaço

Kubrick nosso que estais no céu
Chapados sejam os teus roteiristas
Venha à nós a vossa lombra
Que tuas histórias nos encuquem contra nossa vontade
Assim no cinema como no sofá
Delarge's e HAL's de cada dia nos dai hoje
Perdoai nossas ignorâncias assim como nós perdoamos vossa superestimação de nossas inteligências
E não nos deixeis cair no lugar comum
Perdoai nossas más interpretações, amém

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Soneto longo e negativo

Não crie expectativas comigo
Não cobre nada de mim
Não espere que, de mim, partam declarações
Eu tenho asas e elas não me permitem prender à você

Não sou linda, não me comovo quando você me chama assim
Não sonho com você, não tenho tempo pra isso
Aliás, quando durmo, estou tão cansada que não sinto a noite findar
Não torça pra eu me ferrar, sequer me preocupei em brincar com seus sentimentos

Não pense em mim, eu não penso em você
Não ligue pra ouvir minha voz, estou ocupada demais
Não condene meu cigarro; você vai embora, ele não
Não se preocupe comigo, nem eu me preocupo... comigo!

Não queira conhecer minhas faces, minhas máscaras não são peças de exposição
Não acompanhe meus passos, eles são tortos de propósito
Não queira despertar remorso em mim, repito, sequer me preocupei em brincar com seus sentimentos
Eu não te amo, não te quero, não me interessa você

E se ainda se perguntar porque deixei você entrar na minha vida, tudo bem
Eu respondo:
Eu não presto.

domingo, 30 de agosto de 2009

Carroll, Tolkien e eu.

The surreal parade.

Me debruço na janela, segurando minha caneca azul fosco cheia de café requentado. Não demora muito e Alice aparece correndo atrás de seu Coelho Branco. Tão loira (ou morena, as ilustrações de John Tenniel são em preto e branco), serelepe, curiosa e instigada, se emburaca rumo ao desconhecido, que lhe engole numa única abocanhada.
Logo em seguida, me aparece um exército de Ents. Cascas grossas, velhas sábias, cruéis e onipotentes, não há machado que as derrubem ou palavras que lhe desmintam. Barbávore, mais velha, me sorri desajeitadamente, e minha caneca treme com os passos das gigantes anciãs.
Incrédula, testemunho todos os meus conhecidos da faculdade vindo logo atrás. Alguns, inclusive, ousam pendurar-se nos galhos das árvores retardatárias do último desfile. Outros, pouco mais atrás, lêem Le Goff, Duby, Bloch e até Sartre. Os da parte final bebem, fumam e cantam numa só algazarra. Provável que eu, se não na minha posição de mera espectadora, estaria no meio deles.
Boca maldita! Mal me menciono, venho eu. Uma mochila, um par de all stars, alguns cigarros e folhas em branco. Lágrimas. Eu choro perante tanta fantasia e pouca vontade. Muita vontade e pouco tempo. Muito tempo e pouca coerência. Pareço confusa, dando um tempo de mim, da minha vida, do trabalho, do café, do cigarro, de Coelho, de Estella...
Mas sei e sinto que não morri. Nunca estive tão viva. Muda, mas viva. Desenterro contos, escrevo outros, rasgo a maioria, mas não os abandono. Nem que eu permaneça dopada, escrevo. O que vi, o que fiz, o que sou ou deixo de ser.

Perdão, M.H voltou.